A trajetória de “Chinese Democracy” tem tanta história atravessada que às vezes parece um álbum cercado por álbuns invisíveis. Um desses “capítulos que quase foram” envolve Brian May. O guitarrista do Queen chegou a gravar partes para o Guns N’ Roses, mas nada do que ele tocou entrou na versão final do disco lançado em 2008 – o que, claro, deixou fãs curiosos por anos.
A versão mais repetida do bastidor passa por “Catcher in the Rye”. Quem conta o caso é James Greene Jr., autor de um livro sobre a saga do álbum, dizendo que existe uma divergência de memória aí: Axl teria dito que a parte do Brian saiu porque fizeram uma edição no solo e, quando tocaram de volta pra ele, ele não teria ficado satisfeito. Em vez de ajustar até todo mundo ficar contente, resolveram apagar a participação por completo.
A forma como Greene descreve o Brian é bem compatível com a reputação dele, relata a Ultimate Guitar: o guitarrista “contestou” isso com educação, dizendo que não lembrava dessa cena do jeito que foi contada, mas que, por ser um disco do Axl, se ele decidiu tirar, tudo bem – e que gravar tinha sido divertido. A moral da história, pelo menos nessa versão, não é “briga”: é uma decisão de comando mesmo.
O detalhe que deixa tudo mais esquisito é que uma versão com a guitarra do Brian acabou vazando depois. Aí entra aquela maldição clássica: quando o público ouve uma alternativa, começa o campeonato de “essa é melhor” e pronto, o assunto nunca morre. Você já vai colocar o vídeo na nota, então não preciso empurrar isso aqui.
Anos depois, o próprio Brian May falou do período e deu um retrato que ajuda a entender o clima.”Foi uma experiência estranha. Acho que foi mais ou menos no meio de todo o processo. A essa altura, o Axl era praticamente um recluso. Ele trabalhava na casa dele, e eu trabalhava no estúdio lá embaixo, com o engenheiro dele na época, e ele raramente descia. De vez em quando ele ligava, ficava todo entusiasmado e falava um monte, e depois sumia de novo. Eu não acho que nada do que eu toquei tenha entrado no álbum.”
May ainda disse que tem mixes e fitas de trabalho com a guitarra dele nessas faixas, mas que prefere manter isso guardado por respeito ao Axl. Ou seja: existe material, existe registro, mas não existe a menor intenção de transformar isso em lançamento oficial “pra ganhar manchete”. O caso todo acaba virando uma daquelas histórias que combinam perfeitamente com o “Chinese Democracy”: muita gente passando, decisões mudando, versões indo e voltando, e um nome gigantesco (Brian May) aparecendo como nota de rodapé de um processo que já era complicado demais mesmo sem ele.



