Muita gente gosta de tratar o Guns N’ Roses como se a banda tivesse surgido do nada, em 1987, para salvar o hard rock de uma vez só. Em parte, até dá para entender essa leitura. “Appetite for Destruction” chegou como um coice num cenário que já começava a cansar com laquê, pose e bandas cada vez mais caricatas. Só que Axl Rose nunca escondeu que havia gente importante antes deles. E uma dessas referências vinha de um grupo que, muitos anos antes, também soube unir sujeira, teatralidade e apelo popular num pacote difícil de ignorar: o Kiss.
Numa participação surpresa no programa de Eddie Trunk, em 2006, resgatada pela Far Out, Axl falou justamente disso ao comentar uma de suas músicas preferidas da banda. “‘Calling Dr. Love’ sempre foi uma das minhas músicas favoritas porque tocava no rádio AM”, lembrou. Até aí, tudo bem. O melhor veio em seguida, quando ele puxou a figura de Gene Simmons para o centro da história. “E se você conhece o Gene e conhece o mundo do Gene, e pensa no mundo dele nos bastidores e nos lugares onde a língua dele andava, simplesmente eu não conseguia acreditar que tocavam aquela música no rádio AM naquela época.”
A graça da observação está justamente aí. Axl não estava apenas dizendo que gostava da música. Estava apontando para o contraste entre o formato aparentemente acessível do hit e o conteúdo malicioso que ele carregava por baixo. Escrita por Simmons e lançada no álbum “Rock and Roll Over”, de 1976, “Calling Dr. Love” é basicamente Gene fazendo propaganda de si mesmo como solução para qualquer carência afetiva alheia. Não era exatamente poesia recatada para tocar entre jingles de supermercado e noticiário de trânsito.
Talvez isso tenha ajudado a música a marcar tanto o jovem Axl. O Kiss tinha um jeito muito particular de empurrar excesso, sexo e cinismo para o centro da cultura popular sem perder a cara de entretenimento de massa. E o Guns, anos depois, faria algo parecido à sua maneira. Não com maquiagem, sangue falso e botas de plataforma, mas com outra espécie de sujeira, mais urbana, mais decadente e mais perigosa. Em vez de demonizar o Kiss como muita gente do rock “sério” gostava de fazer, Axl parecia entender que havia ali uma escola útil.
Também não deixa de ser curioso que a lembrança dele recaia justamente sobre um momento em que o Kiss ainda era visto como força real no hard rock, antes de virar, para muita gente, sinônimo de exagero dos anos 1980. “Calling Dr. Love” pertence a uma fase em que a banda ainda tinha impacto, riffs fortes e um senso de identidade que não dependia só do circo visual. É um Kiss mais afiado, mais direto e menos refém da caricatura que viria depois.
A fala do Axl revela mais do que uma preferência isolada. Mostra como um sujeito que seria tratado mais tarde como símbolo de escândalo, perigo e provocação sabia reconhecer isso em artistas anteriores. Ele ouvia “Calling Dr. Love” não só como hit, mas como absurdo delicioso: uma música descaradamente safada, assinada por Gene Simmons, tocando na rádio de forma totalmente normal. E, pensando bem, talvez fosse exatamente esse tipo de contradição que sempre atraiu Axl Rose no rock and roll.



